DELINQÜÊNCIA - DEPOIMENTO VERDADE

Só deu tempo de correr. Corri, corri impulsionado pelo medo, pela angústia. Não olhei para trás. A lembrança de Sodoma e Gomorra me assustava. Não queria virar estátua de sal. Quase tropecei na velocidade do vento. Meus pensamentos a minha frente me direcionavam para algum lugar. Chorei como criança. Eu era uma criança querendo entender um mundo adulto e tão confuso. Nada fazia sentido.
Vi que havia sangue em meus sapatos. Talvez dele, talvez dela, qualquer que fosse, era o meu sangue. O mesmo que agora oxigenava os meus membros inferiores e me dava força para alcançar a maior distância possível.
Nessas brigas nunca se sabe quem começa, mas eu já sabia como terminava. Não queria que ficasse na minha lembrança por resto da vida. Chega de ter pesadelos. Havia um medo de me tornar um ser tão frio e calculista como ele. Ou talvez passivo demais como ela, isso me revoltava ainda mais. Queira rasgar os ensinamentos dominicais. Não salvei minha casa, como diziam. Estava quebrando o espelho de família. Não me refletia neles. Nem me via naquele mundo pequeno e mesquinho.
Então segui a mim mesmo e me tornei um cão farejador. Era todo um instinto de sobrevivência que me dominava. E me projetei naquela figura animalesca. Jamais voltei a vê-los. E sofri todas as faltas e carências nas ruas e nos bancos frios das praças. Aprendi a lutar e minhas garras cresceram. Lutava por tudo, por qualquer coisa. Sem escrúpulos, sem moral. Perdi o medo. Tornei-me um egoísta em potencial. Adquiri uma malandragem que assustava. Não media as palavras e quase sempre queria descontar no mundo todo o ódio do passado. Queria encontrar um culpado e entender por que a vida não me deu outra sorte.
Novamente me vi no espelho. Eu era ele. Em aparência e caráter. Frio e calculista. A imagem e semelhança de quem eu fugi por toda vida. Meu pai.
J.C. 13 anos
Menino de rua.
Imagem: www.dhnet.org.br/direitos/ sip/onu/c_a/ca5.jpg
Escrito por -=Cömbätente=- às 12h35
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