Chegamos com o nosso ABI (Auto Bomba) mas a capacidade de água foi insuficiente para conter as chamas. No local já havia cerca de 100 bombeiros dos quartéis mais próximos e um oficial de Vila Isabel comandava a operação.
O comandante da nossa equipe era um capitão que passei a chamá-lo de “pé quente” – aquele que atrai fogo. Recebemos as instruções e prontamente fomos empregar toda a nossa energia em benefício do serviço – conforme os preceitos da ética do BM (Art. 25).
Tivemos dificuldade para chegar ao foco devido o risco de desabamentos. Tentamos a lateral mais a parede do prédio, que havia caído antes da nossa chegada, dificultava o acesso. Conseguimos entrar pelos fundos do prédio graças a colaboração dos moradores que movidos de um sentimento de solidariedade nos davam passagem e nos ofereciam leite.
Ficamos em cima de uma laje de onde se podia ver bem o *tetraedro do fogo. O que dificultava ainda mais. Não havia muito fumaça – ainda – e não precisamos colocar a Máscara autônoma – foi menos um peso.
As linhas foram montadas e iniciamos o combate. Esguicho direcionado, jato sólido ou contínuo. Revezávamos naquela posição por horas. Parávamos quando a viatura ia abastecer – o que não demorava muito. Lá embaixo o fogo lambia as madeiras empilhadas como um dragão faminto.
No rosto da equipe um cansaço estampado. O suor escuro escorria pela face e nos olhos o reflexo do brilho vermelho-amarelado das chamas. A expressão que traduzia a vontade inabalável de cumprir o dever de bombeiro-militar. Até com o sacrifício da própria vida.
Naqueles soldados-do-fogo, mais experientes, pude ver o amor à profissão e o entusiasmo com que é exercida; a consciência das responsabilidades; o espírito de corpo - manifestações essenciais do valor do bombeiro militar que me fizeram sentir orgulho de pertencer à Corporação.
Os primeiros raios de sol despontavam no horizonte. Agora todo prédio deu lugar a uma fumaça branca e sufocante. Alguns focos remanescentes logo eram extintos pela equipe que nos substituía. Demonstrando camaradagem e cooperação. Não houve vítimas.
De volta ao quartel éramos como soldados voltando da guerra. Não como derrotados, mas vitoriosos. Com aquela sensação de dever cumprido.
“Mas não temem da morte os bombeiros
Quando ecoa d’alarme o sinal
Ordenando voarem ligeiros
A vencer o vulcão infernal.”
*TETRAEDRO DO FOGO: esquema de quatro faces para exemplificar os quatro elementos essenciais do fogo: calor, combustível, comburente e reação em cadeia.